A ursa que não era


Era uma vez um urso que, um dia, depois de um inverno hibernando como todos os outros, saiu de sua toca e foi confundido com um empregado de uma fábrica.

“Mas eu sou um urso!”

“Um urso? Você é só um cara bobo que precisa fazer a barba e usa um casaco de pele!”

O curta-metragem “The bear that wasn’t”, de 1967, brilhantemente animado pelo jovem Chuck Jones e baseado na história cativante de Frank Tashlin, virou um dos meus filmes favoritos. O design, a música, a história… talvez eu seja um pouco como aquele urso.

Foram 45 anos sendo confundida com algo que não uma ursa

Hoje tenho 47.

Aos 3, aprendi a ler sozinha. Aos 5, escrevia histórias e ilustrava. Desmontava brinquedos de corda e montava depois. E era chorona. Chorava por tudo.

Cresci, segurei o choro, contava 30 vezes a mesma piada que só eu achava graça, e meu desempenho na escola alternava entre a melhor aluna da turma e ficar em recuperação em História. Passava a aula inteira desenhando e só tirava notão – menos em História. Nunca sentei a bunda para estudar para uma prova e tava lá, com bom desempenho. Meus amigos eram os dos gostos peculiares, das conversas sobre temas incomuns para a idade, os colecionadores de coisas – discos, quadrinhos. 

Tudo normal.

Meu desempenho escolar, acadêmico e profissional sempre foi bem na média.

Uma capacidade de resolver problemas fora do comum, mas também uma incapacidade gigantesca de organização, de seguir processos, de prestar atenção em qualquer coisa que eu tivesse que prestar atenção.

Minhas finanças, um caos.

Meu armário, bagunçado.

Um cérebro ligado no 220, mas sem controle.

Mas eu resolvia problemas, então sempre dava um jeito do caos não me afetar.

Segurava o choro e fingia normalidade, até que um dia não deu mais.

O ano era 2023. Uma separação, uma filha pequena, um burnout, e a certeza de que o burnout, como urso, também não era burnout. Afinal, meu trabalho era em tempo parcial. A separação deixou minha rotina mais leve. A maternidade, apesar de puxada, sempre foi amparada pela rede de apoio.

Mas meu tempo… Para onde ia meu tempo? Era para eu ter tempo.

A real é que eu nunca soube gerenciar meu tempo.

O distúrbio de atenção sempre esteve ali, mascarado pela capacidade fora do comum de enxergar soluções para problemas.

E a capacidade de resolver problemas sempre esteve ali, mascarada pelo distúrbio de atenção.

Uma sensação permanente de inadequação durante 45 anos, mas eu estava lá, conseguindo gerenciar.

Até que o outono chegou, bagunçou tudo, e não deu mais para segurar a onda.

Naquele ano, eu explodi internamente. Travei. Não consegui.

Do psicólogo para o psiquiatra, do psiquiatra para a avaliação neuropsicológica, “ah, era isso o tempo inteiro, era só meu cérebro funcionando diferente?” Beleza, tem medicação para regular, tem acompanhamento profissional, tem autoconsciência da condição de dupla excepcionalidade, tudo certo. É um processo.

Mas ainda tinha uma peça do quebra-cabeças faltando.

Era outono. O ano era 2024.

Tempo fresco, quase frio, mas aquele calor que me subiu pela espinha era diferente.

Não era apenas aquecimento global.

O calor foi embora e voltou mais algumas vezes, por cerca de algumas semanas. De vez em quando ele volta.

Meu peso resolveu aumentar mesmo frequentando academia 3x na semana.

O rosto está dando uma caída.

A menstruação também anda rareando, pode ser o Mirena finalmente fazendo seu trabalho, mas dessa vez eu tenho certeza que não é.

É perimenopausa. Climatério. Segunda adolescência. Chame do que quiser.

E eu entrei em modo hibernação para sair ursa.

Está sendo difícil voltar a escrever. Estou ainda ressignificando 45 anos acreditando que eu era fresca, chorona, medrosa, burra, esquisita, e outros adjetivos nada gentis. Entendendo para onde o descontrole sobre minha impulsividade me levou e, agora, com consciência do processo, fazendo escolhas melhores. Tirando a máscara de ambas as condições para, finalmente, me enxergar como sou (e controlar o que pode ser controlado, parar de lutar sozinha e pedir ajuda).

Um urso sério olhando para o horizonte

Epílogo

depois da longa hibernação, ela despertou. Não era mais aquela ursa que gastava sua energia tentando se enquadrar no padrão “uma mulher boba num casaco de pele”. A vida inteira tinha sido um exercício exaustivo de masking, esse contorcionismo para parecer menos… bicho. Menos intensa, menos espaçosa, menos faminta. Mas o inverno, esse grande reset compulsório, trouxe mais do que o degelo: trouxe também a clareza de um instinto que não aceita mais ser domesticado. Despertou com ela a ferocidade para proteger seu tempo, seu espaço e sua cria; a sabedoria para alternar entre a fúria e o descanso profundo; e a determinação inabalável de quem agora entende que seus passos pesados não são um defeito, mas a marca de quem finalmente caminha sobre o seu próprio chão.

Ela não precisava mais provar que não era uma ursa. Bastava, finalmente, ser.

E que o mundo, agora, aprendesse a lidar com o seu rugido sem filtro.