Eu queria mesmo era carro voador


Estive nos quatro dias de Rio Innovation Week. Voltei com a cabeça fervilhando de ideias depois de assistir a painéis sobre IA, direito autoral, criatividade humana, tendências de tecnologia, o futuro do Direito, Legal Design e Visual Law, marketing digital, regulação da IA no Brasil, sobre a atuação do INPI no ecossistema de inovação…

Saí feliz, cheia de ideias, e, ao mesmo tempo, cansada e querendo aprender a bordar, pintar com aquarela, sei lá.

É sobrecarga sensorial que chama, né?

Às vezes fico pensando o que eu fiz com a minha vida, que não estou levando essa bagagem toda para empresas, dando entrevistas, dando palestras. Contribuindo ativamente com o ecossistema de criatividade da cidade onde vivo.

“Mas logo você, tão desenvolta em palcos?”

It’s complicated.

Um dia eu explico.

Na vida real, fora do LinkedIn, eu temo que o futuro seja só IA, Bet e fintech – IA apostando em bet, transação financeira mediada por fintech, de repente sobram também uns ativos de criptomoeda por aí.

Esse negócio de carros voadores era caô.

Acho interessante como nesses eventos de tecnologia e inovação sempre tem um pessoal na outra ponta: de um lado, a turma do “você TEM QUE aprender a usar IA, é vantagem competitiva”. Do outro, filósofos, influencers, escritoras, falando em passar tempo offline e se conectar com o mundo real.

De se conectar com seu eu.

De se conectar com seu poder criativo.

Mulher, eu não tenho nem férias direito. Por mais estranho que possa parecer, tenho achado cada vez mais que desconectar, uma vez que você tem acesso a tecnologias e trabalha com elas, é luxo de gente rica. O proletário já é dependente social e econômico do grupo de whatsapp com o cliente.

Aí vem a influencer que paga empregada, babá e personal dizer que tem que ficar offline de manhã e ler um livro antes de dormir, pra ser protagonista da sua própria vida.

É de fuder, viu?

A dopamina do vídeo de gatinho dançando APT APT logo pela manhã pode ser a única alegria do proletário digital.

De qualquer forma, que diferença faz?

O futuro só vai ter IA, bet e fintech mesmo.

Nesse contexto, a gente se apega ao passado. Sei lá, eu tenho um APREÇO a coisas vintage, uma compulsãoZINHA por colecionar coisas, por pesquisar imagens, objetos e músicas da primeira metade do século XX. Câmera de filme, disco de vinil, geladeira velha, roupa de pin-up.

Não é que eu romantize o passado. Mas um dia entendi que esse apego é porque o passado dá segurança. Sempre lembro do livro “Seduzidos pela memória”, de Andreas Huyssen, em que ele argumenta que a obsessão contemporânea pela memória surge de um “terror do esquecimento”, intensificado pela instabilidade do tempo presente e pelo excesso de informações. Quanto mais a sociedade é bombardeada por estímulos efêmeros, mais o passado é mobilizado como refúgio estável.

(uma segurança, obviamente, ilusória, pois memórias são, geralmente, reconstruídas e mediadas por interesses políticos e midiáticos – e o bombardeio de informações continua acontecendo enquanto você ouve seu vinil da Elis Regina no seu sofá réplica de pé-de-palito, com sua camiseta réplica da camiseta do seu time em 1970)

Toma, tem show completo do The Linda Lindas na internet:

Qual a coisa mais aleatória com a qual você já trabalhou?

Eu já dei uma palestra motivacional para funcionários de uma empresa de telecomunicações em Macaé.

Com bambolês.

Olha, gente, em minha defesa, eu tava precisando pagar as contas. Surgiu esse convite do nada, eu fui lá e banquei.

Nunca me chamaram pra voltar, o que diz muito sobre minha vocação para dar palestra motivacional.

Também já produzi, junto com as maravilhosas Camila Rocha e Pitila Hossmann, 200 bambolês para um comercial. 

Sim.

Bambolê já pagou minhas contas.

Já ganhei dinheiro cantando e gravando voz para comercial.

E você?

Me conta.

Um beijo e boa semana!