Vamos repensar nosso sistema de locomoção pelas cidades?


O Pedal Sonoro, no âmbito da campanha “Bicicleta nas Eleições”, promovida pela União Brasileira de Ciclistas – UCB, realizou hoje um encontro excelente com o Daniel Guth, de SP, que atua como consultor de políticas de mobilidade urbana.

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Mano, o Daniel Guth é parente do Czarnobai?

Sim, é claro que o assunto foram as bicicletas – mas não apenas. E mesmo você que não pedala pode chegar aqui e participar.

No fundo, no fundo, os movimentos cicloativistas falam sobre bicicleta, mas também promovem (ou deveriam promover) uma discussão sobre o direito à cidade e ao espaço urbano – por urbano, entende-se o espaço construído e/ou pavimentado. As cidades sempre foram espaço de encontros, de pessoas, de rituais, de compartilhamento de experiências, de aprendizado – tendo as pessoas como protagonistas. Só recentemente, nos últimos 100 anos de, sei lá, sete mil anos de cidades, que o ser humano começou a perder espaço em detrimento de máquinas potentes, rápidas e perigosas.

E em vez de criar regras estritas para a circulação dessas máquinas, e segregar as máquinas do convívio com o ser humano (para não ameaçar a integridade física dos cidadãos), os urbanistas resolveram abrir espaço para as máquinas e segregar as pessoas, criando regras para a circulação de gente pelo espaço urbano – agora você não pode mais simplesmente atravessar a rua para chegar de um ponto a outro, mas precisa cumprir uma série de regras para sua suposta segurança.

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O resultado, a gente conhece: muito espaço para o transporte motorizado individual, pouco investimento em transporte público acessível e eficiente, e pelo menos aqui no Brasil nenhuma grande cidade sem problemas sérios de trânsito – o que quer dizer “excesso de carros” e “acidentes graves com motocicletas”.


Para que servem as ruas das cidades? Elas ainda são espaços de encontros, de compartilhamento, de rituais? E a quem servem as cidades? Quem vive a cidade? Quem apenas dorme nela? Quem ganha com ela?

Geralmente, esses movimentos de repensar não apenas os sistemas de transporte, mas os sistemas de locomoção pela cidade, acabam sendo incentivados por ciclistas – porque, embora o pedestre seja o elo mais frágil da cadeia, é o ciclista que precisa conviver no mesmo espaço dos carros, caminhões e motos – o pedestre tem seu espaço segregado -, estando mais sujeito a acidentes. O que não quer dizer que grupos organizados pelo mundo inteiro não promovam discussões e entrem nos espaços políticos e de legislação para provilegiar o pedestre – a Liga Peatonal da Cidade do México é um ótimo exemplo de associação que conseguiu dialogar com o poder público.

E uma cidade segura para pessoas, em geral, é uma cidade com baixa velocidade; onde as leis de trânsito são respeitadas; que estimula a circulação; uma cidade segura também em termos de segurança pública (que já melhora muito a partir do momento em que há circulação de gente, comércio, iluminação e oferta de equipamentos culturais acessíveis para toda a população, inclusive as populações marginalizadas – que poderiam se sentir incluídas, finalmente).

O Daniel contou de sua experiência com São Paulo, com a entrada nos espaços de política e legislação. A gente tentou traçar um paralelo com Niterói. Que horror. Que horror.

Apesar de ser uma cidade perfeitamente ciclável, por sua geografia, Niterói tem aquela síndrome de vira lata em relação ao Rio de Janeiro – uma relação de dependência econômica que obviamente reflete na total falta de investimentos na “independência” de Niterói, que poderia ser um pólo de inovação, de serviços, de produção de cultura e conhecimento – mas não, somos dependentes do Rio. E nosso sistema de transporte é dependente do Rio. Até nosso trânsito depende do fluxo no Rio de Janeiro. Uma catástrofe.

Ao mesmo tempo, sente o drama: um município pouco autônomo, economicamente falando, precisa de investimentos – e tome plano de gentrificação urbanização para favorecer empreiteira e construtora, que podem aportar uma grana na cidade – grana que obviamente acaba – diferente de políticas públicas, que educam e duram. Enfim. É o que temos para hoje.

Favorecer gente, que é bom, jamais.

Este é o cenário.

A discussão foi ótima e bastante motivadora.

Vamos continuar agindo.

Em nota completamente não relacionada, não consigo nem achar palavras para descrever o horror do abate da onça Juma. Muitos equívocos num só, a começar por uma onça desfilando num evento.

E fora Temer, né, meu povo? Sempre.