Filmes que vi: “A onda” (2008)


“Nunca que ‘A onda’ vai passar na Globo” – MESQUITA, Cid.

“A onda” (2008), de Dennis Gansel, baseado no experimento da Terceira Onda, se passa na Alemanha dos dias de hoje (quer dizer, 2008) – essa mesma Alemanha próspera, sustentável, culta, cuja capital virou destino do desejo da Europa inteira, mas que ainda guarda feridas profundas de 80 anos atrás. E, para explicar as consequências de uma autocracia para uma turma de adolescentes numa escola aparentemente experimental e moderna, Rainer Wenger, professor de sociologia (e com tendências anarquistas), resolve sair da teoria e fazer com que seus alunos entendam na prática como funciona um regime autocrático.

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– Pô, ‘fessor, vamos falar de nazismo de novo? A Alemanha não vai cair nessa de adotar uma ditadura de novo.
– Você realmente acha isso? A propósito, sugiro que vocês se levantem quando forem falar. Perceba que sua respiração melhora, sua postura melhora… não é muito melhor?

E, na primeira aula, você, espectador, já imagina onde aquilo vai levar.

Porque – como vimos, aliás, no meio alemão “O ovo da serpente”, de Ingmar Bergman – regimes totalitaristas aparecem sob algumas condições favoráveis. Por exemplo, um povo sem esperanças; apático, insatisfeito. Bom, qualquer adolescente está suscetível a entrar numa turma dessas; tem também inflação, insatisfação com o sistema político, desemprego. Opa, parece um certo país em desenvolvimento. Só falta aparecer um líder carismático e com bons argumentos.

(a diferença é que temos inflação e desemprego, mas não é nem de longe como era em 92, 93, embora os veículos de comunicação com maior alcance no Brasil insistam em focar nestes dados, como se o que estamos vivendo fosse a pior época do país. Não são. Eu lembro bem dos ‘fiscais do Sarney, e a gente tá muito longe disso)

E Wenger, assim como sua contraparte da vida real, o pesquisador Ron Jones, tem bons argumentos: em nenhum momento ele é autoritário em relação à disciplina que os alunos devem seguir, mas é excelente em manipular os jovens a fazer o que ele pede – e no final das contas, aqueles jovens sentem que precisavam de disciplina; precisavam pertencer a um grupo; precisavam ter um sentido, uma causa comum – ainda que aquela causa fosse absolutamente nada; e entram fácil na pira d’a ONDA.

Que cresce. E você vai ter que ver o filme para saber como o professor sai dessa situação.

Tem no Netflix.

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O longa ainda pode gerar uma bela reflexão sobre poder. E sobre como somos facilmente manipuláveis – basta estarmos em grupo.

Ou estarmos na posição de poder.

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Pense nisso quando vir todo mundo de camisetinha de uma cor na rua, hostilizando quem passa com uma cor mais berrante e dizendo que não concorda com aquilo. Eventualmente, até agredindo fisicamente.

Em nome de quem eles estão fazendo isso?

Isso faz sentido para você?

Quem são os líderes ditos deste pessoal?

E quem os está liderando de verdade?

Pense que a Alemanha entende deste assunto e fala dele com propriedade. E questione o comportamento de manada. Sempre.

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“A onda” é realmente um filmaço.

Assista.

E você? Quais são seus planos para o domingo de páscoa?